PARIS, França, 1 Nov 2011 (AFP) -A fabulosa "Pedra do Sol" que teria
permitido, segundo a saga escandinava, aos navegadores Vikings
orientarem-se, mesmo com mau tempo ou em dias nublados, não é mais uma
simples lenda, dizem cientistas, num estudo publicado nesta
quarta-feira.
Sabe-se que os Vikings percorreram milhares de
quilômetros em direção à Islândia e à Groelândia, descobrindo, sem
dúvida, a América do Norte, por volta do Ano 1000, bem antes de
Cristóvão Colombo. Mas sua capacidade de navegar sem bússola em longas
distâncias, e em condições desfavoráveis (noite polar, neve), ainda é
considerada um mistério.
Além de seus excelentes conhecimentos
astronômicos e marítimos, eles teriam utilizado a "Pedra do Sol",
olhando através dela para detectar a posição exata do astro-rei,
invisível a olho nu, deduzindo assim a posição do navio.
Como em
algumas regiões do norte as luzes do dia são perpétuas, eles não
poderiam ter usado estrelas para navegar e não havia ainda as bússolas
magnéticas. Assim, a solução foi usar a pedra, como o narrado em algumas
sagas, inclusive a do herói Sigurd, que usava a solarsteinn, Pedra do
Sol.
As lendas que os mencionam não dão, no entanto, nenhuma
indicação quanto à natureza dessas pedras fabulosas, com nenhuma delas
jamais identificada formalmente em vestígios arqueológicos.
Segundo Guy Ropars, do Laboratório de Física de Lasers da Universidade
de Rennes-1, esta "Pedra do Sol" não seria senão um "spath d''Islande",
espato da Islândia, um cristal de calcita transparente, relativamente
comum na Escandinávia, e que é ainda usado em alguns instrumentos
óticos.
Esse cristal tem, com efeito, a propriedade de
despolarizar a luz solar, isto é, filtrá-la de formas diferentes,
segundo a posição da pedra.
Concretamente, se olharmos a luz
através do cristal, ele produz dois feixes diferentes, um "comum" e o
outro "despolarizado". "Ao virarmos o cristal sobre si mesmo, quando as
intensidades das duas imagens forem estritamente iguais, ele transmite a
direção do Sol", asseguraram à AFP Guy Ropars e seu colega Albert Le
Floch.
Precisão Os raios do Sol que chegam até nós são, com
efeito, parcialmente "polarizados", isto é, orientados num sentido
preciso.
"Quando olhamos o zênite, a luz do Sol, que no começo é
não polarizada, cai sobre as moléculas da atmosfera. Essas moléculas se
comportam como pequenos transmissores que levam a nosso olho uma
vibração horizontal, perpendicular à direção do Sol", explicam os
físicos bretãos.
Com a ajuda de cálculos teóricos e uma longa
bateria de testes realizada com seus colegas canadenses e americanos,
eles concluíram que "a direção do Sol pode ser facilmente determinada,
graças a uma simples observação, baseada na diferenciação entre as duas
imagens" produzidas pelo espato da Islândia.
"Pode ser atingida
uma precisão de alguns graus, mesmo em condições de fraca luminosidade",
destaca o estudo, publicado na revista científica britânica Proceedings
of the Royal Society A.
Mesmo sem possuir nenhum conhecimento
científico sobre a polarização, os Vikings puderam, então, facilmente
observar as propriedades desse cristal e se servir dele para encontrar o
Sol de forma segura.
Um cristal de calcita foi descoberto,
recentemente, a bordo dos destroços de um navio britânico do século XVI,
ao longo da ilha anglo-normanda de Anderley. Seria isso uma
extravagância inútil, tendo em vista que a bússola era conhecida dos
navegantes europeus desde o século XIII?
"Verificamos em Anderley
que um só dos canhões dos destroços poderia, por causa de sua massa
metálica, perturbar a orientação do compasso magnético de 90 graus.
Assim, para evitar um erro eventual de navegação, quando o Sol está
escondido, o recurso a um compasso ótico poderia ser crucial mesmo
naquela época", revela o estudo.
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