Boa leitura!
Um abraço, Delúbio Soares
Delúbio Soares (*)
Faz mais
de três décadas que conheço Luiz Inácio Lula da Silva. Dirigente
sindical dos professores de Goiás, pelos idos do final dos anos 70, fui
apresentado ao dirigente sindical dos metalúrgicos do ABC paulista.
Nascia ali um laço forte de respeito e admiração por sua luta, por seus
ideais e pela forma como sempre se portou na defesa da classe
trabalhadora.
Bem antes
do alvorecer dos anos 80, a fervilhante década que marcou a
redemocratização de nosso país com a eleição de Tancredo, as Diretas Já e
a convocação da Assembléia Nacional Constituinte, eu já estava ao lado
de Lula fundando aquele que viria a ser o maior partido da história do
Brasil e um dos mais importantes partidos de esquerda de todo o mundo.
Tempo faz…
Enfrentamos
a descrença da maioria absoluta, dos que não acreditavam no nascimento
de um partido que consagraria seu ideário em favor da classe
trabalhadora, das mulheres, das crianças, dos negros, dos indígenas e
das minorias. Não colocavam fé num partido sem raposas tradicionais, sem
doutores famosos ou grandes empresários, sem capilaridade alguma na
elite dirigente de um país que se preparava para operar a transição do
regime autoritário para uma abertura democrática, ainda que tímida,
ainda que sob a tutela dos que nos oprimiram por 21 longos e duros anos
de chumbo. Éramos só teimosia e fé.
O Partido
dos Trabalhadores nascia como uma força da natureza, sem nenhuma
estrutura grandiosa, enfrentando toda sorte de percalços e não bafejado
pelos donos do poder econômico ou a mídia, sempre tão hostis. Mas o PT
brotava do Brasil verdadeiro, das legiões de miseráveis do país onde
suas imensas riquezas ainda estavam nas mãos de pequeníssima minoria. O
PT surgia como um sonho generoso de uns poucos diante da incredulidade,
do pessimismo e da acomodação da quase totalidade.
Ao lado de
Lula percorremos cidades e campos, enfrentamos o frio da madrugada nas
portas de fábrica da rica São Bernardo do Campo ou suamos em bicas, sob
sol escaldante, pregando para meia-dúzia de irmãos nossos de um Brasil
esquecido e paupérrimo nos grandes sertões e nas veredas do
Jequitinhonha, então um vale da fome e do esquecimento. Lula fixava nas
retinas a imagem do país sofrido que ele viria a transformar em Nação
vitoriosa. Lula desenhou nas solas dos sapatos a geografia daquele
Brasil faminto e doente, preterido e humilhado, com o qual celebrou um
pacto de alma: resgatar a dignidade de sua gente e torná-lo um país mais
justo e desenvolvido.
Com ele,
Lula, nosso líder inconteste e nosso companheiro exemplar, colhemos
aplausos tímidos de platéias escassas pelo interior sofrido, nos
deparamos com a zombaria e o desestímulo dos que apenas espiam a
história e não querem mudá-la. Fomos ovacionados em estádios lotados nas
assembléias de trabalhadores e, também, na maioria das vezes nos
intoxicamos com os gases das bombas lacrimogêneas, enfrentando a ira dos
poderosos de então, sentindo no lombo a dureza dos cassetetes e no
coração a leveza de que – exatamente por tudo o que nos acontecia –
estávamos no caminho certo.
Quando as
vicissitudes faziam parte de nosso cotidiano e tudo era só incerteza ou
insucesso, nem assim, jamais ouvimos dos lábios de nosso líder qualquer
reclamação, lamúria alguma, uma blasfêmia sequer. Quanto pior a situação
que enfrentávamos, mais Lula crescia. Impossível sentir medo, duvidar
do futuro ou acreditar no fracasso ao lado de um homem que, sendo
cordato de alma e flexível no diálogo, é uma cordilheira intransponível
quando os princípios estão em jogo.
É que Lula
faz parte de uma categoria raríssima de homens e de mulheres
diferentes. São os que não vieram na vida a passeio, mas a serviço. São
aqueles escolhidos pela história, para que sejam os agentes de seus
desígnios e cumpram missões quase tão impossíveis quanto indispensáveis
para seus povos. Suas vidas e seu amanhã não lhes pertence, passando a
ser de sua gente e do próprio processo histórico. Com o Estadista Luiz
Inácio Lula da Silva não seria e nem foi diferente.
Pior que o
câncer era o destino reservado aquela família tão numerosa quanto
paupérrima, de cidadezinha perdida no sertão do Pernambuco, que num
precário caminhão pau-de-arara fugiu da fome e do abandono e foi “buscar
a sorte” e “tentar a vida” no sul maravilha. Na carroceria lotada de
sacos travestidos de malas, entre os rostos sofridos havia o sorriso
luminoso de uma brasileira chamada Lindú e o olhar penetrante de um
filho seu, mal-chegado à adolescência e a quem a história marcaria de
forma tão indelével quanto gloriosa.
Muito pior
que o câncer era a trajetória de vida que nossa estrutura social tão
injusta destinava ao filho de Lindú. Trajetória tão igual a de outros
milhões de brasileiros, de nordestinos, de pobres, de deserdados de um
Brasil tão rico e tão pobre: poderia ser vendedor de laranjas,
engraxate, jornaleiro, flanelinha, peão-de-obra, pintor de paredes,
pedreiro… Com um pouco de esforço e sorte, poderia ser um operário
qualificado ou funcionário público, pequeno comerciante… E já seria
muito! Jamais, um “Doutor”! Isso sem falar nos que não sobrevivem à fome
ou se perdem nos desvãos da injustiça social ou do submundo.
Lula
venceu o pouco que lhe estava destinado. Ajudou sua mãe no dia-a-dia e
no sustento de muitos irmãos, não rejeitou trabalho algum, enfrentou a
pobreza e se tornou um metalúrgico. Depois, já era líder sindical
respeitado e responsável pelas grandes greves que balançaram a ditadura e
apressaram o processo de redemocratização. Preso e humilhado, deixou o
cárcere apenas para despedir-se da mãe adorada, já morta. Foi dos
piores momentos de sua vida. Porém, Lula o superou e jamais guardou
mágoas de quem quer que fosse. Seus carcereiros, trinta anos depois,
declarariam seus votos nele para Presidente da República.
Fundou o
PT, disputou e perdeu feio o governo de São Paulo. Logo após, disputou e
perdeu três eleições consecutivas para a presidência da República. Lula
sofreu toda sorte de agressões verbais e violências morais. Não lhe
pouparam nada, nem a vida pessoal, nem sua família ou mesmo sua
(pouquíssima) instrução escolar. Mas a história, caprichosa e sábia, mal
registrará os nomes dos que o derrotaram. Até que em 2002, em
verdadeira e memorável revolução pelo voto, os brasileiros fizeram com
que a esperança vencesse o medo e deram a ele, Lula, a oportunidade de
mostrar a que veio. E ele não os decepcionou!
Mais de 40
milhões de brasileiros deixaram a pobreza e ingressaram na classe
média. As universidades se abriram para o povo através de Pro-Uni e
nunca se construiu tanta moradia popular quanto no governo do presidente
Lula. A indústria e o comércio viveram os melhores anos desde o governo
de JK, meio século antes. Um Brasil desmoralizado por três quebras
humilhantes no naufragado governo do sociólogo Fernando Henrique
Cardoso, o “Príncipe dos Sociólogos”, passou a ser admirado e aplaudido
pelo mundo todo durante o governo do semi-alfabetizado Lula, o “sapo
barbudo”. O Brasil derrotado e perdedor, com a auto-estima estraçalhada
pelo neo-liberalismo do tucanato, levantou sua cabeça e passou a ser um
dos países eleitos para o sucesso e a
liderança no século XXI. O olhar penetrante do menino esquálido do
caminhão pau-de-arara viu longe, viu mais, viu o que os meninos ricos
que governaram o Brasil antes dele jamais sonharam ver.
Lula
enfrentou o ódio, o medo, o preconceito, a mentira, a calúnia, a
maldade, a incredulidade, o pessimismo, a hipocrisia. E todos eles são
espécies de câncer. Lula os venceu, o derrotou um a um.
Há hoje,
nas entranhas do país que Lula transformou para melhor, em cada coração
um lindo e nobre sentimento de solidariedade verdadeira, de pungente
ternura, de amizade sólida, de admiração genuína, de torcida em favor do
guerreiro que enfrentou e venceu todo e qualquer mal que se lhe
apresentasse ao longo de seu caminho.
O coração
generoso de nosso grande povo pulsa solidário e forte. Missas, cultos e
orações se sucedem. Velas e luzes se acendem nos confins do Brasil mais
profundo, mãos se unem em oração e os que nada tinham e hoje comem,
trabalham, estudam e exercem plena cidadania, vibram positivamente por
Lula, um irmão deles que chegou lá.
Agora Lula está lutando contra um câncer. Péssimo para o câncer: Lula, de novo, vencerá.
(*) Delúbio Soares é professor
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